Revista TIME – 05.12.1965 | Matéria que citou sobre o batismo apostólico



Matéria de Capa de Revista TIME

05 de Dezembro de 1955

A Antiga Religião

O diácono levantou a sua mão e Públio Décio entrou pela porta do batistério. Em pé, mergulhado no tanque até a cintura, estava Marcos Vasca, o madeireiro. Ele estava sorrindo, enquanto Públio descia até o tanque ao lado dele. “Credes…?”, perguntou ele. “Creio”, respondeu Públio. “Eu creio que a minha salvação vem de Jesus o Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos. Com Ele eu morro para que com Ele eu possa ter a Vida Eterna”. Então, ele sentiu braços fortes suportando-o, enquanto se deixava cair para trás no tanque, e ouviu a voz de Marcos em seu ouvido: “Eu te batizo no Nome do Senhor Jesus”, enquanto a água fria se fechava sobre ele.

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Ofegando para respirar, Thomas Dewey Davis Jr, 25 anos, da Avenida Dartmouth 6757, de Richmond, subiu para a luz e para o ar novamente. Ele ficou de pé com água até a cintura na água aquecida eletricamente do pavimentado tanque batismal iluminado. Acima dele estava uma janela de vidro colorido mostrando Cristo e João Batista. Próximo a ele, de pé no tanque, um homem grisalho de aparência amigável, o Rev. Theodore Floyd Adams da Primeira Igreja Batista de Richmond. Havia música de órgão, e então ambos o pastor e o novo cristão mudaram-se para roupas secas.

Entre estes dois batismos – em Roma, no ano 100 d.C., e nos Estados Unidos semana passada – extende- se aproximadamente 20 séculos de história cristã. No decorrer das guerras santas e heresias, das corrupções e reformas, dos triunfos dos santos e as vitórias dos céticos, a pequena companhia da fé tem se espalhado através do mundo. Cristãos tem dado a si próprios nomes estranhos e tem adorado o Pai, Filho e Espírito Santo com concessões e omissões que teriam chocado os cristãos da Roma primitiva. A grande igreja feita em ladrilho de estátua pontilhada na Avenida Monument de Richmond, não se pareceria em nada com a igreja de Públio. Porém a cerimônia era a mesma, e o cristão do primeiro século, que geralmente desconhecia o batismo por respingo ou aspersão, provavelmente se sentiria em casa na cerimônia por imersão dos batistas.

Pois os batistas tentam duramente se adequar à fé e prática do cristianismo primitivo. Para eles, o batismo adulto não é meramente um curioso rito tradicional; ele severamente aponta para a sua convicção de que a fé cristã somente pode ser aceita por alguém que pode pensar e falar por si mesmo.1 Similarmente, a insistência no batismo por imersão, como é apresentado na bíblia, cumpre o duplo simbolismo da lavagem do pecado e da morte e renascimento, adicional à convicção apontada pelos batistas de que a Escritura é a completa e suficiente base da fé cristã. A tradição ortodoxa cristã considera a igreja como a instituição estabelecida por Cristo na terra para receber contínua revelação, mas para os batistas a igreja é meramente um companheirismo de indivíduos crentes, e não de alguém que possui alguma autoridade espiritual sobre o outro. Cada indivíduo é essencialmente livre para interpretar a Escritura por si mesmo. Desta forma, os batistas marcam provavelmente de maneira mais distinta a linha divisória na cristandade. “Deveria haver não mais do que três denominações no mundo”, disse certa vez um bispo episcopal: “os católicos, posicionados de um lado pela autoridade da igreja, os batistas, posicionados do outro lado pela autoridade da bíblia. Todas as outras denominações deveriam estar unidas, pois a diferença entre elas é aquela entre duas coisas parecidas”.

A história cristã conhece os batistas como um povo dissidente e extravagante, intransigente, às vezes rude, se não absolutamente perigosa aos olhos dos ortodoxos. Todavia no século 20 nenhum grupo protestante tem sido mais bem sucedido. Hoje nos Estados Unidos, os 18,4 milhões de batistas formam em grande parte do país, o maior crescimento da denominação protestante. E em todos os Estados Unidos, nenhum ministro de sua igreja é mais amplamente respeitado do que Theodore Floyd Adams, de Richmond.

Florescimento na Rússia. Na semana passada em Washington, o pastor Adams se reuniu com membros do comitê executivo da Aliança Batista Mundial, da qual ele tem sido presidente desde o último verão, para fazer planos para os seus 5 anos de mandato e para considerar a situação dos batistas por todo o mundo. O quadro perante o comitê foi impressionante. Na Ásia existem agora cerca de 650.000 batistas, na África 223.000, na América do Sul 134.000, na América Central e nas Antilhas quase 100.000. Na Europa existem aproximadamente 1.100.000 batistas, 500.000 deles na Rússia, onde o seu movimento está florescendo. Mas é nos Estados Unidos que os batistas tem realmente a sua própria conquista.

Existem aproximadamente duas dúzias de corporações batistas reconhecidas nos Estados Unidos, das quais somam-se cerca de um em cada três protestantes no país e um em cinco cristãos.2 Eles incluem: 1) a Convenção Batista Americana (no qual os batistas do norte começaram a se chamar em 1950, numerando 1.600.000); 2) duas principais denominações de batistas negros, a Convenção Batista Nacional dos EUA (4.500.000) e a Convenção Batista Nacional da América (2.600.000); 3) a Convenção Batista do Sul, com

8.200.000 membros, os quais são de longe o maior e mais vigoroso grupo batista nos EUA. Os batistas do sul tem rompido a marcha constante e progressiva dos soldados cristãos das igrejas dos EUA e estão avançando em dobro. Itens:

  • 1) Nos últimos cinco anos, eles tem batizado uma média de 100 novos membros por dia.
  • 2) Das suas 30.000 igrejas filiadas nos 24 estados, o Distrito de Columbia, México, Havaí e Alasca possuem propriedades avaliadas em aproximadamente 1,2 bilhões de dólares, frente aos 276 milhões de dólares em 1945. Anualmente as contribuições somam cerca de 305 milhões de dólares.
  • 3) A membresia da escola dominical ganhou 597,36 no ano passado para um total de 6.356.489.
  • 4) Atualmente eles sustentam 30 escolas e universidades, 22 escolas juniores, seis seminários, oito academias e quatro escolas bíblicas. Registro total: 50.080.
  • 5) Eles administram 33 hospitais e 23 jornais.

Mudança de Modelo. Quais são as pessoas que tem construído este recorde? São aqueles lavradores distantes da cidade batendo com uma bíblia, pregando o fogo do inferno com um tipo de religião que estala os seus suspensórios aos berros e desdenhosamente para os outros protestantes, e todos liberais e o Papa? Theodore Adams é um de seus pastores mais conhecidos, todavia ele jamais soca o ar com mais do que um dedo quando ele prega para a sua congregação, a qual inclui jovens executivos e suas esposas, pintores, carteiros e os gerentes de cadeias de lojas. São eles confederados teimosos a quem um nortista é necessariamente um ianque e um ianque é sempre desnecessário? O pastor Adams é um dos homens mais influentes no sul, porém ele nasceu em Nova Iorque e foi educado no Oregon e Indiana.

Talvez a coisa mais tipicamente batista a respeito do pastor Adams é de que ele não se conforma com o modelo batista. E o modelo batista em si está mudando.

A Zona Bíblica. O cristianismo batista como muitas outras religiões dissidentes, encontrou um lar feliz nos EUA. Sua feroz fé na igualdade de direitos, sua invejosa separação da igreja e Estado, sua forma quente e fria de adoração – todos tinham fortes apelos para o tipo de homem mais provável para suceder sobre o novo continente. E assim os briguentos, inconformistas, livres adoradores batistas e os briguentos, inconformistas e livres adoradores americanos aceitaram uns aos outros e cresceram juntos.

No novo continente no século 17, não foi amor à primeira vista, como é mostrado pelo caso de Roger Williams, que fundou a primeira igreja batista da América (embora ele abandonasse a persuasão batista dentro de poucos meses para se tornar um “pesquisador” ou “independente”). Ele era proprietário de terras em Boston em 1632, tendo vindo da Inglaterra sob a impressão de que ele fosse um puritano, mas quase que imediatamente ele ficou em desavença com o sacerdócio puritano de Boston. Em pouco tempo, Roger Williams foi condenado por ter “errôneas e perigosas” opiniões antes que ele escapasse e fundasse a cidade de Providence (“por um abrigo para pessoas aflitas pela consciência”).

Na Virginia os episcopais tiveram a sua tentativa para expulsar os batistas. Quando dois batistas foram cercados pela multidão e levados a julgamento por perturbação da paz (“Eles não puderam encontrar ninguém no caminho”, disse o advogado de acusação, “mas eles devem forçar um texto da Escritura abaixo de sua garganta!”) um jovem advogado episcopal chamado Patrick Henry que cavalgou 50 milhas para defendê-los. “Por causa da pregação do Evangelho de Deus!” ele atacou a corte. “Grande Deus! Grande Deus! Grande Deus!”.

Quando os fronteiriços avançaram para o oeste para a nova terra, os pregadores batistas nunca foram logo atrás deles, sem as Escrituras em seus alforjes. Depois da Guerra Civil, que causou uma divisão na denominação da qual nunca se curou plenamente, os nortistas se estabeleceram nas grandes cidades para trabalhar em suas máquinas, e o número de batistas entre eles começou a se estabilizar. Porém no sul rural eles continuavam em constante crescimento. Eles batizavam nos rios e riachos e em lagoas de vacas. Eles adoravam em celeiros e igrejas de pau a pique e organizavam grandes reavivamentos de libertação em tendas. Eles prosseguiram com uma mão firme sobre costumes e morais: dança, bebida e fumo eram pecados batistas, e corridas de cavalo eram quase tão ruins quanto o roubo de cavalo. Quando a bíblia precisava ser explicada, os batistas não tinham medo de fazê-lo completamente pela força do pulmão; quando precisava defendê-la contra os cabeças de ovo da evolução eles estavam prontos em fazê-lo também (seis batistas estiveram no júri ordinário de Scopes). Nenhum sacerdote, nem igreja, ou um ser humano pode separar um batista e seu Deus. Isto poderia conduzir a uma profunda religião pessoal, e isso também poderia produzir um tumulto de pequenas seitas irregulares, como por exemplo, o Duck River, Seis Princípios Gerais, Escudo Primitivo ou Duro e as Duas Sementes no Espírito dos batistas predestinacionistas. E todo este espírito inconfomista era freqüentemente combinado por uma cadeia de ferro, da conformidade social triplamente pregado, designado a manter tudo e todos em seu lugar – especialmente o negro.

Esta foi a “Zona Bíblica”, porém não por muito tempo. Duas gerações de sulistas tem se movimentado para as cidades; as diminutas seitas tem secado completamente, e os antigos avivamentos do “fogo do inferno” estão menores e mais distantes em meio ao altamente organizado mundo de Billy Graham, Oral Roberts e da TV. O batismo sulista hoje é maior, mais ocupado e bem melhor do que alguma vez esteve. Para um assunto em questão, aí está o pastor Ted Adams e a Primeira Igreja Batista de Richmond.

Oferta em Toledo. No próspero ano de 1928, a igreja batista (fundada em 1780) construiu para si um grande edifício georgiano de 400 mil dólares, que cobre mais de uma quadra na Avenida Monument. Mas no ano depressivo de 1935 os diáconos estavam desesperados. Os pagamentos dos juros sobre a dívida do prédio raramente estavam sendo satisfeitos, e a congregação havia ficado sem um pastor regular por 14 meses.

O comitê de púlpito, incapaz de concordar sobre qualquer candidato, nomeou uma subcomissão de cinco homens sob a presidência do advogado T. Justin Moore. “Eu lhes disse que eu o assumiria”, lembra Moore, “somente se eles nos autorizasse a sair e contratar o melhor pregador batista nos EUA, independente de onde nós o encontrássemos”.

Eles o encontraram em Ohio. O pastor Adams da próspera igreja batista da Avenida Ashland de Toledo, era um nortista dos nortistas, e mais surpreso ficou em receber o seu chamado do que os sulistas estiveram por dá-lo a ele. Quando ele ouviu o que eles queriam, ele imediatamente pediu para que a sua esposa, Esther, participasse da discussão. “O único argumento que parecia ter algum peso”, lembra o presidente Moore, “era de que a igreja batista de Richmond tinha grande influência no sul. Um dos membros do comitê pos isso muito bem asperamente: os batistas no sul, disse ele, sofriam de um ponto de vista estreito muito demasiado, e aqui era uma chance para Adams fazer algo sobre isso”.

Ted e Esther Adams pensaram sobre isso, calculando juntos a prestação de contas de seu ministério.

Começo em Palmyra. Dificilmente havia ocorrido a Ted Adams de que ele pudesse alguma vez fazer qualquer outra coisa senão de servir a Deus em tempo integral. Sua primeira memória é de estar sentado com sua mãe na pequena igreja batista de Palmyra, NY, o seu lugar de nascimento, “e olhando para lá e vendo o meu pai no púlpito, pregando para a congregação, e pensando que coisa maravilhosa era aquilo”.

Quando ele estava com cinco anos a família se mudou para a segunda casa pastoral de seu pai, na pequena cidade de McMinnville (população 6.635), Oregon. Em um domingo ali, Ted sentou-se na igreja ouvindo a um evangelista que seu pai havia convidado para pregar. “Ele terminou e pediu para que verdadeiros crentes viessem para frente”, diz Adams. “Sem sequer saber que eu estava fazendo isso, fiquei de pé e vi meu pai ali parado esperando. Foram somente três ou quatro passos ali em cima, mas mesmo para uma criança de seis anos de idade eu pensava comigo mesmo de que eles foram passos terrivelmente importantes. Se eu tivesse esperado 50 anos mais eu poderia não ter feito um verdadeiro compromisso comparado com o que eu fiz naquele dia como uma criança”. Mais tarde, seu pai lhe advertiu de que alguns de seus companheiros de brincar poderiam importuná-lo sobre isso. “Se eles fizerem”, ele advertiu, “digo-lhes: ‘Sim, fui batizado, e eu apenas desejo que vocês também tivessem sido’.”

Decisão em Hammond. A família Adams mudou-se para um pastorado na industrial Hammond, Indiana. Lá como um estudante de uma escola secundária, Ted descobriu o trabalho de toda a sua vida. “Eu estava lendo, de todas as coisas, a vida de Billy Sunday. Quando eu terminei, fui para o andar de cima para pensar sobre o que eu havia lido. E enquanto eu me sentava lá, o Senhor perguntou claramente: ‘Você quer ser um pregador?’, e eu respondi: ‘Meu Senhor, se é isso o que Tu queres que eu seja, isso é o que eu serei’. Então a decisão foi feita naquela tarde, e eu nunca duvidei disso novamente”.

Quando Ted graduou-se na escola secundária, ele decidiu esperar um ano para ser capaz de ir para o colégio com o seu irmão mais jovem, Earl. A pedido de sua mãe, ele passou o ano em Chicago tornando-se um quiroprático. (Hoje a família Adams ostenta que ele é o melhor estalador de pescoço e quebrador de vértebra no ministério batista). Em 1921 Ted e Earl (agora um funcionário do Concílio Nacional de Igrejas) graduou-se como um Phi Beta Kapa da Universidade Denison de Ohio, e Ted imediatamente se inscreveu na Escola de Divindade Colgate-Rochester, onde o seu pai havia estudado. Seu primeiro chamado foi para a igreja batista de Cleveland Heights, e dentro de um ano aos 26 anos de idade, o pastor Adams havia se casado com Esther Josephine Jillson, uma pequena moça energética de Beaver Dam, Wisconsin. Três anos depois, ele se mudou para Toledo, onde a delegação de Richmond o encontrou.

Embora eles não tivessem a intenção de aceitar a oferta, os Adams sentiram que eles deviam pagar a cortesia de uma visita da Primeira Igreja Batista. O comitê de púlpito pos o seu melhor pé à frente com um belo jantar no Hotel John Marshall de Richmond. A bênção costumeira foi seguida pela fresca toronja, a qual, para o espanto de todos, foi convertida para ser literalmente reforçada com licor. Ted Adams (que nunca tomou uma bebida) meramente riu, e todos conseguiram divertir-se com isso. Quando a sobremesa apareceu, ela se converteu em uma fruta flutuando em rum. Diz Esther Adams agora: “Achamos que isto fosse uma maravilhosa piada”.

Quando eles chegaram em casa em Toledo, nenhum deles estava ainda convencido de que eles deveriam se mudar para o sul. Três ou quatro noites mais tarde Ted Adams estava em seu escritório quando “de repente eu soube de que eu simplesmente tinha que ir”. Ele subiu imediatamente ao andar superior e contou à sua esposa. “Sim”, disse ela calmamente, “Eu sei disso desde ontem”.

Sucesso em Richmond. Nos 19 anos e nove meses desde que Adams pregou o seu primeiro sermão em Richmond, a Primeira Igreja Batista tem crescido muito rapidamente. A membresia tem aumentado dos aproximadamente 1600 para quase 4000 – e estes não são crentes ocasionais dos domingos. Cerca de 3.500 deles freqüentam a escola dominical, mais de 3000 depositam regularmente porções específicas de seus rendimentos, perto de 1000 dizimistas. O débito do edifício tem sido pago há muito tempo e a Primeira Igreja Batista tem se tornado uma das mais generosas da igreja batista em todo o mundo, contribuindo para, entre outros, a Cruz vermelha, o YMCA, o Fundo do Serviço Mundial, o Auxílio Coreano. Quando o pastor Adams chegou, contribuições para a Primeira Igreja Batista totalizavam aproximadamente 71.000 dólares em 1936. Este ano Ted Adams requisitou à congregação uma quantia de 300.000 dólares, e no domingo passado eles o levantaram.

É assim que a Primeira Igreja Batista tem administrado anualmente o “quadro de todos os membros”. Nos assentos do corredor no começo das 9 da manhã, sentaram-se no culto 300 varões voluntários, cada um responsável por uma metade de dois assentos. A um sinal do pastor Adams, cada voluntário se levantava e distribuía talões de contribuição. Enquanto a congregação estava preenchendo os seus talões, os voluntários e o pastor Adams preencheram os seus (salário de Adams: 15.000 dólares). Depois, marchando de dois em dois no corredor em passe lento, os obreiros traziam os talões para o altar. O processo foi repetido no culto das 11 da manhã.

Quando o último culto terminou, os voluntários se reuniram no porão da igreja para um rápido lanche, enquanto outros obreiros continuavam a separar os talões de contribuição alfabeticamente, adequando-os com arquivos de talões para cada membro da igreja, codificados para mostrar a sua localização em Richmond. Por volta das 13:00, cada voluntário estava lá fora em um setor de Richmond buscando por aqueles que não haviam sido alcançados, e por volta das 15:00 os únicos membros da Primeira Igreja Batista que não haviam sido solicitados foram os enfermos, os que moravam fora da cidade ou os endividados. O pastor Adams nunca sabe de qualquer cifra a não ser do total. “Eu não sei quanto que qualquer membro de minha igreja dá”, diz ele. “Isso é algo que eles tem que estabelecer entre eles mesmos e o Senhor. É uma coisa maravilhosa não saber quem são os seus maiores contribuidores da igreja”.

O Relógio. A Primeira Igreja Batista de Richmond, escreveu o Arauto Cristão certa vez, “é uma igreja que parece ter tudo; ela pulsa como um relógio de 17 rubis”. Estendendo do seu “santuário” com ar- condicionado, o lugar atual de adoração é uma expansão firmemente entrelaçada de 150 salas trabalhadas. Aqui a escola dominical é acompanhada pelo que é virtualmente uma base do berço até a sepultura. Um berçário antisséptico de 20 camas é assistido por enfermeiras voluntárias registradas para cuidar de crianças, e no quarto dos bebês um alto-falante toca hinos suavemente. Até que com um mais jovem são três, e ele é um veterano na escola dominical, e na sala de aula ao lado, sua mãe e seu pai podem estar estudando a aplicação bíblica no processo de educação de crianças, e na sala ao lado desta, sua avó pode estar estudando sobre o problema dos missionários na Coréia. Um ginásio bem equipado está em constante uso pelos adolescentes locais, e as luzes iluminam até tarde a cada noite para as reuniões, grupos de debate e serviços socais.

Para conservar o relógio funcionando diretamente, a Primeira Igreja Batista emprega uma equipe de dois pastores associados, um pastor assistente e um diretor de serviço social, um especialista em criança em tempo integral, um organista diretor de música, um assistente de direção de música, um diretor de creche diário, um superintendente do edifício, três zeladores, uma hospedeira em tempo integral, quatro secretários e um variado grupo de assistentes de meio-expediente.

Mas a mola principal é Ted Adams – ele é feito de tal aço finamente temperado que ele pode trabalhar o dia todo, sete dias por semana, e ainda ser o homem mais tranquilo de Richmond. Seu dia começa às 7 da manhã, na confortável casa de ladrilhos vermelhos dos Adams na Estrada Matoaka. Após um moderado café da manhã com sua esposa e a mãe dela, a Srª. Selma Hopf Jillson, Adams caminha lentamente ao andar de cima para o seu escritório onde ele transmite do outro lado para a Estação KRNL, dez minutos a cada manhã

– uma palavra sobre as notícias ou o estado atmosférico, uma passagem da Escritura e ocasionalmente um poema sobre um tema religioso.

Se possível, ele passa uma hora ou duas com o seu sermão (ele devota suas férias de seis semanas anuais para planejar os seus sermões por um ano com antecedência) depois dirige-se para a igreja em seu Mercury 1953, para uma rodada de reuniões, relatos e aconselhamento pastoral. Um compromisso que ele mantém a toda a hora que ele puder é a sua traquinagem das 6 da tarde com a sua neta de dois anos de idade, Tedde, filha de sua filha de 28 anos, a Srª. Frank Thompson. (Seus dois filhos, Ted no Chesapeake & Potomac Telephone Co. e Bob na Universidade Denison, não são casados.) Após o jantar há mais trabalho: reuniões na igreja, comitês cívicos e visita a doentes paroquianos. Ele não possui hobbies – aparentemente ele não precisa de nenhum. O calmo cavalheiro em seus olhos azul-cinza, com seu brando e largo sorriso, em sua lenta passagem ao longo de um dia de 16 horas, desconcerta aqueles que o conhecem apenas casualmente. Ele diz: “A calma está enraizada na fé em Deus, em si mesmo e no último triunfo da justiça”.

Panela Derretendo. A Primeira Igreja Batista de Richmond não é normal: ela é muito grande e muito próspera para isso. Porém sua energia e eficiência são típicas da Convenção Batista Sulista de hoje. De Kansas City, Missouri, onde os batistas possuem um fundo rotativo de 70 mil dólares para comprar terrenos para novas igrejas, para Texas, onde eles estão somando uma média de duas novas igrejas para as suas listas a cada semana, a denominação está pulsando tão dedicadamente quanto a própria igreja de Ted Adams. “Se você vê um novo prédio sendo erguido”, diz um corretor de imóveis em Little Rock, Arkansas, “você pode estar certo de que é ou um novo supermercado ou uma igreja batista”.

Pregadores de regiões distantes do país ainda trovejam contra os demônios do rum, do romanismo e do romance no salão de baile, e até mesmo pregadores de cidades sofisticadas participam de melodramas; quando Jospeh Stalin morreu, o pastor Wayne Dehoney da Igreja do Central Park de Birmingham, transportou um caixão para dentro de seu santuário e pregou um sermão sobre os demônios da ditadura (o jornal acrescenta que ele classificou isso de “discurso fúnebre de Stalin”). Mas, no geral, são os novos fatos ao invés dos antigos, das figuras familiares do batismo sulista, que são importantes.

Entre os novos fatos estão novas faces. No Novo México, por exemplo, os batistas tem conquistado massas de convertidos em meio aos trabalhadores técnicos do norte, americanos hispânicos imigrantes e índios. Trabalhando através de equipes de reavivamentos motorizados, encontros de acampamentos de peões, e os mais amplos acampamentos ao ar livre (em Glorieta), os batistas do Novo México alcançam frequentemente uma atmosfera de consolidação. De um culto recente, o Rev. Lewis Myers de Laguna diz: “Eu era o pregador, a moça no órgão era navaho; uma mulher hispânica conduzia o hino, e na congregação havia um número de índios anglos e laguna, todos sentados juntos, orando juntos e amando o Senhor juntos”.

Pecado Respeitável. A experiência do Novo México ainda está longe do outro lado típico do sul como um todo, mas é um sinal de que os velhos tempos de isolação estão terminando. Talvez o mais significante, seja o colapso na teologia. Por décadas, quando a teologia liberal estava em voga, os batistas foram considerados desesperadamente retrógrados. Agora os próprios batistas tem se tornado mais liberais – notável em aceitar mais e mais de um evangelho social que inclui de tudo desde cozinhas públicas para salvo-conduzir campanhas – mas na realidade é o restante do cristianismo protestante que se mudou para o modo batista. Por que nos anos 30 começou um novo clima teológico no qual o pecado original foi novamente respeitável e o fundamentalismo não era mais um assunto de riso. Uma velha doutrina batista conhecida como landmarquismo,3 que sustenta que o homem é impotente para salvar a si mesmo e que deve depender inteiramente da graça de Deus, é reenfatizado nos escritos do teólogo suíço Karl Barth. Outros teólogos protestantes tem reafirmado a importância do batismo (seja na batista ou em outras versões) como um sacramento cristão.

Junto com o isolamento teológico, a isolação geográfica está terminando. Batistas sulistas ainda dão ao movimento ecumênico e às organizações internacionais uma ampla distância. Mas os batistas sulistas tem se arriscado com a Aliança Batista Mundial de Ted Adams (um companheirismo internacional sem poder sobre os seus membros), e eles tem se tornado há bastante tempo interessados em seus irmãos no exterior. O próprio Adams foi à Rússia neste verão.

O Fato Permanece. Provavelmente o problema mais sério enfrentado pelo batismo sulista, e a área onde a mudança é mais lenta, é a segregação dos negros. Para todos os propósitos práticos, o batismo sulista é estritamente preto e branco. Existem casos de pegadores batistas dispensados por ousarem falar contra a segregação.

“Eu tive que aprender todo um novo conjunto de heróis quando eu vim para o sul” diz Ted Adams, mas Jim Crow nunca se tornou um deles. É sobre este assunto que a visão de Adams difere muito profundamente da maioria de seus companheiros batistas sulistas. A Aliança Mundial está registrada como dizendo: “Discriminação e segregação… são eticamente e moralmente indefensáveis e contrários ao Evangelho de Cristo”. Mas Ted Adams sabe que tais frases que soam da liderança são amplamente ignoradas pelo posto e a vida. Como muitos outros líderes de igrejas sulistas, ele é cuidadoso para não pressionar a pesada consciência batista muito duramente. “Eu estou perfeitamente ciente de que existem problemas complexos e um acúmulo de emoções dos quais devem ser resolvidos quando as raças estão integradas. Minha responsabilidade não é discutir o fato de que existem tais problemas. Minha responsabilidade é pregar o tipo de Evangelho que levará as pessoas a uma solução”.

O sol brilha luminoso no batismo sulista. Ele está fazendo a dura transição desde a particularidade do ardente coração ferido para a mordomia em larga escala, e ainda sem perder a essência do cristianismo primitivo. Porém a transição está longe.

Diz o advogado Justin Moore, o homem que descobriu o pregador Adams para Richmond: “Ted Adams é provavelmente respeitado por uma vasta maioria dos batistas sulistas e de toda persuasão política como o mais fino pregador batista no mundo. Mas permanece o fato de que ele nunca poderia ser escolhido presidente da Convenção Batista Sulista”.

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Esta é uma tradução feita na íntegra do inglês para o português, das páginas 66, 67, 68, 71, 72 e 74 da matéria de capa da Revista Time, do dia 5 de dezembro de 1955.

Meu mais profundo agradecimento ao irmão Raimundo Amaral, por ter disponibilizado do seu acervo pessoal, o artigo original da Revista TIME para essa tradução.

Tradução: Diógenes Dornelles (Maio de 2011).


1 Ao longo dos séculos, muitos grupos sustentavam esta visão (como contrário ao batismo infantil, que se tornou geralmente aceito na cristandade), entre eles os donatistas do terceiro século, alguns petrobrusianos e waldensianos do século 12, os irmãos boêmios do século 15. Foi só durante a Reforma que o assunto se tornou realmente aquecido, com o levante no século 16 dos anabatistas (literalmente re-batizadores), e um conjunto de seitas que se opuseram todos ao batismo de crianças, mas que se opuseram também, variadamente, aos juramentos, ao serviço militar e a administração de cargos públicos. As seitas foram impiedosamente sufocadas, porém algumas (os menonitas e os hutteritas) recuperaram forças no século 17 e depois.

2 Alguns dos batistas mais conhecidos: Harry S. Truman, John D. Rockefeller Jr., Harold Stassen, Billy Graham, Estes Kefauver.

3 Pois seus partidários tem com freqüência se referido aos “velhos landmarks”.

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